Casa, Escola, Comunidade – Que tipo de criança estamos deixando para o mundo?

Talita de Almeida

Para que a criança possa viver em sociedade e dela receber os estímulos à sua inteligência e desenvolvimento físico, é necessária a existência de três elementos influindo sobre o educando: ambiente, educador e material de desenvolvimento.

Em cada um desses elementos básicos de influência, no entanto, nós teremos presentes a casa, a escola, a comunidade, responsáveis, todos, pela educação da criança em seu grupo social.

No processo educativo é necessário, imprescindível mesmo, que a casa, a escola e a comunidade tenham pontos concordantes de educação e cultura, possuindo uma mesma linguagem e transmitindo um similar código de valores. No entanto, isto nem sempre acontece, os três elementos de influência mais direta muitas vezes discordam entre si em suas filosofias de valores e na prática educativa, fazendo a criança viver uma situação dúbia, nem sempre clara para ela, que não encontra equilíbrio nas propostas de vida apresentadas.

A criança é o elo entre as gerações. Ela é quem transmite a cultura já renovada pelos valores integrados e reelaborados. Ela é, hoje, o homem que leva a tocha do futuro, o observador ingênuo do presente – ingênuo mas crítico – analisando com sua inteligência o momento sócio-econômico-cultural em que vive. Ela é um expectador do acontecido em casa, na escola e na comunidade e ela refletirá, desde o berço, o clima que este ambiente, este educador, estas ofertas de ações lhe imprimiram.

Isto hoje é tão óbvio, tão conhecido, tão divulgado, porém, o adulto de todos os níveis nunca foi tão impotente quanto à educação de seu filho, seu aluno, seu vizinho. Inconsciente ou conscientemente, ele resolveu adestrá-lo, condicioná-lo a estímulos e respostas prontas, por não saber por que e para que educar.

Não adianta retroagirmos a um passado, onde os limites eram claros, apesar de arbitrários. Havia só a vontade do adulto, e a criança tinha que esperar ser também adulto para mandar, para ter o poder. Mas, havia certas normas, bem precisas, para serem seguidas. Também havia os “gigantes”, os sentimentos não confessáveis, as lutas, o sub-mundo, o pai prepotente, dominador, a mãe chorosa e submissa, o filho recalcado e cheio de agressividades e fantasia contida, expressas em ações camufladas e desejos inconfessáveis.

Neste século, à criança foi dado o lugar de elite, foi promulgado o seu valor e exigido o reconhecimento de suas potencialidades. Foram criados seus direitos mínimos, para que se mantivesse a dignidade mínima do Homem. Ela está sempre presente em festas, discursos, comemorações, onde com sua singeleza e pureza entrega flores e dá beijos nas autoridades.

Em nome de direitos foram oferecidas “liberdades”, numa antevisão do apocalipse, onde a criança tudo pode ouvir, ver, fazer, exigir. Não há limites à sua absorção, às suas experiências. E em seguida, entre estupefatos e surpresos, vemos a criança perdida, agressiva, petulante, indisciplinada, viciada surgir a nossos olhos e, imediatamente, começamos a condená-la.

Não cabe, neste momento, falarmos de moral – nem da criança, nem do adulto – mas não podemos atingir nosso tema sem considerarmos os valores reais de nossa época, sem nos determos e analisarmos o adulto de 1980, as gerações das últimas quatro décadas, que são os dirigentes reais da educação e da cultura nacionais, aqueles que apresentam o certo e o errado a seus filhos, seus alunos, seus vizinhos.

O que houve conosco nesta época de conscientização e valorização do Homem, nesta época de radicais mudanças sociais? E quando pergunta-se o que houve não nos referimos a reflexões existenciais dos livros e dos sermões. Pergunta-se dos nossos “gigantes”, pergunta-se da nossa impotência, pergunta-se da nossa fragilidade, mesmo comparada com a de nossos pais tão criticados por nós.

Todos dizem que a educação brasileira está falida. Muitos afirmam que há interesses nesta falência da inteligência e da ação do Homem; vários contestam e apresentam soluções messiânicas; alguns encaramujam-se no passado, ou se agregam a grupos radicais de crença, de política ou mesmo de neurose coletiva. Poucos, no entanto, passaram a ter uma atuação com bases na realidade, enfrentando o momento terrível de transição, de ignorância, de falta de afeto, de responsabilidade, de coerência e mesmo de paternidade. Poucos, tanto no Brasil como no mundo, estão se preocupando com o “outro”, o ser que está a seu lado convivendo, servindo, andando na rua. Estamos numa época de bondade, necessária para a sobrevivência física e mental, e nunca estivemos tão egoisticamente assentados em nossos “mundinhos”, em nossos interesses, na nossa perecível pessoa.

Seria impossível determo-nos mais nesta análise do Homem como pessoa, que todos conhecem bem. Porém, sem isto, como falar da pré-escola e da comunidade? Como falar de direitos e deveres? Como falar de corresponsabilidade?

Como falar de utopias necessárias e vitais para a inteligência do Homem, este ser bípede e pensante, que escapou de ser animal por sua constituição e habilidades e que está bem perto de tornar a sê-lo pela sua incapacidade de adaptação e de preservação? Se o mundo acabasse agora, poucos teriam o que dizer, alguns justificariam timidamente, outros tentariam o discurso e a postura defensiva, mas poucos seriam integralmente Seres Humanos.

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