A pioneira do Método Montessori no Brasil

Talita de Almeida

Piper de Lacerda Borges, nasceu no Rio de Janeiro , no dia 14 de novembro de 1907. Desde criança sempre manifestou muito gosto e interesse pelos estudos. Seu pai a compreendeu e a incentivou, proporcionando-lhe , mais tarde instrução universitária, fato pouco comum às moças da época. Formou-se em química, tendo exercido a profissão por vários anos no laboratório Park Davis, no Rio de Janeiro.

Ao casar-se, diminuiu consideravelmente sua atividade profissional, dedicando-se às atividades do lar com muita alegria e criatividade. Todas as crianças da vizinhança se sentiam felizes, naquela casa da Tijuca, onde havia sempre uma atividade interessante, desde jardinagem a poesias. A observação e o amor à natureza eram cultivados nos passeios pelas praias e florestas desse Rio tão lindo. Seu esposo Dr. Lourenço de Matos Borges, homem culto e bem moderno para sua época, sempre admirou e incentivou as qualidades intelectuais de sua esposa.

Os estudos de Piper nunca se restringiram ao campo profissional. Manteve por toda a vida esse gosto pelo estudo, principalmente de psicologia, filosofia e metafísica. Tinha, porém, uma especial preferência que se referia à educação. Ela era uma educadora nata. Sentia genuíno prazer em seus conhecimentos. Frequentemente era convidada a dar conferências sobre diversos assuntos. Foi uma excelente oradora. Suas conferências caracterizam-se por profundo conteúdo informativo, explanando com muita clareza, acessível a qualquer público, com algo de beleza e arte em suas palavras, que frequentemente inspirava e entusiasmava o público.

Ainda moça tomou o conhecimento de notícias internacionais sobre Montessori. Adquiriu vasta literatura desta autora, em inglês, francês e castelhano e mais tarde em italiano. Interessou-se profundamente pelas ideias de Montessori, consagrando-se à divulgação dessas ideias no Brasil.

Fez várias palestras sobre Montessori, não só no Rio de Janeiro, como em São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e Paraná. Nesse último estado, suas conferências foram apoiadas pela Secretaria de Educação. A convite dessa secretaria realizou conferências em outras cidades daquele estado. De volta a Curitiba, realizou um ciclo de conferências mais completo sobre o Método Montessori, para professores no Instituto de Educação.

Em 1950, Piper de Lacerda Borges foi aluna da própria Maria Montessori, no curso internacional da Associação Montessori em Perugia, Itália. No dia do aniversário de Maria Montessori, Piper foi escolhida para saudá-la, em nome de seus colegas.

Nas palavras da própria Piper, sintamos algo do que significou para ela este encontro com a grande educadora, Dra. Maria Montessori:

Suas conferências que versavam sobre psicologia, eram dadas em italiano e a elas assistiam os elementos de todas as nacionalidades. Quando ela entrava parecia que todo o salão se iluminava, tal era a irradiação de vida, de entusiasmo, de alegria, de bondade e de inteligência que dela emanava. Muito cuidadosa e elegante no trajar, entrava pausadamente pelo braço do Dr. Mario M. Montessori ou na ausência deste, do Dr. Marciano, Presidente do Centro Pedagógico. Todos se punham de pé e a saudavam, com uma salva de palmas. Ela agradecia com seu sorriso encantador, sentava-se convidando-nos a imitá-la com um gesto. No mais absoluto silêncio aguardávamos suas sábias palavras e só o roçar de lápis e penas, um e outro voltear de folhas de papel eram os únicos ruídos que se ouviam em toda sala, além de sua voz clara, doce, penetrante, arrebatadora e eloquente. Cada frase sua era simples e bela e plena de ensinamentos profundos. Emitia conceitos que nos obrigavam a pensar, fazendo com que ao final de cada conferência nos sentíssemos mais enriquecidos e mais despertos para as realidades da vida. Não admira que tivesse sido tão amada, tão admirada, tão reverenciada e que tivesse despertado tanta devoção em seus admiradores e discípulos. Era cheia de pequeninas atenções pelo bem estar de todos, sabia encontrar a palavra justa e animadora para os principiantes e era generosa na apreciação de seus semelhantes e quando falava sobre a criança era tão profundo o amor que revelava e límpida sua compreensão sobre a mesma que em nós se acrescentava sempre a capacidade de amar e compreender os pequeninos. Seu magnetismo pessoal era como um fluido mágico que nos penetrava a todos, nos vivificava e nos engrandecia, em nossa capacidade de ação, de compreensão e de amor. Conta-se que diante dos maiores perigos ou dificuldades, de qualquer natureza, jamais perdia a calma. Certa vez, tranquilamente despertou o Dr. Mario com estas palavras: Acorda Mário temos que sair daqui porque está havendo um terremoto. Sua capacidade de trabalho era extraordinária para pessoas de sua idade. Resistia galhardamente as fadigas de longas viagens.

Terminando o curso em Perugia, Piper visitou a sede da AMI – Association Montessori Internationale na Holanda, bem como estabelecimentos de ensino que aplicavam o Método Montessori naquele país e em vários outros países da Europa.

De volta ao Brasil empenhou-se a proporcionar a seu país a oportunidade de receber a  visita de Maria Montessori. Com essa finalidade realizou uma série de quatro conferências públicas sobre psicologia do Método Montessori, no auditório do Ministério da Educacǎo, sob o patrocínio da Secretaria Geral de Educação e Cultura, do então Distrito Federal, e da Associação Brasileira de Educação. Seguiu-se a essas conferências um curso de introdução ao Método Montessori, realizado no mesmo local.

Colocou em prática seus conhecimentos pedagógicos, ensinando no Jardim de Infância de sua propriedade, intitulado Escola Experimental Montessori.

Continuou, no entanto, o trabalho público de divulgação, empenhando-se especialmente em trazer Maria Montessori ao Brasil. Infelizmente este seu sonho não foi realizado, tendo a Dra. Montessori falecido não muito tempo depois.

Exercendo o cargo de Presidente da Associação Montessori no Brasil, organização por ela fundada em 1950, continuou a divulgação pública das ideias Montessori e a ensinar em seu Jardim de Infância, enquanto a saúde lhe permitiu.

Uma enfermidade na medula a reteve na cama durante seis anos, tendo falecido a 4 de abril de 1968. Seu caráter corajoso, alegre e entusiasta não se modificou com o prolongado sofrimento. A conversa dela continuava a ser agradável, alegre e inspiradora, apesar da debilidade física que cada vez mais se acentuava. Ao conhecer Talita de Almeida e acompanhando o trabalho de Talita pelo Método Montessori, desde o inicio, teve a alegria de ver o seu sonho cada vez mais se realizando. O sonho de despertar o entusiasmo pelo Método Montessori para proporcionar felicidade às crianças, construindo futuros adultos responsáveis, capazes e úteis à sua coletividade, pois desde a mais tenra infância, encontrando um ambiente adequado, não tiveram bloqueadas as expressões da própria vida em seus corações, pureza natural, rica e sábia que levou Montessori a chamar a criança: O pequeno Messias.

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