Fundamentos do Método Montessori

Talita de Almeida

De seu trabalho com crianças com necessidades especiais, Maria Montessori definiu que o problema do déficit de aprendizagem era muito menos um problema médico , do que um problema pedagógico. Se a educação se apresenta como meio que permite a passagem da anormalidade à normalidade, não poderá o progresso pedagógico, vir a ser também considerado responsável pelo outro desvio, qual seja ele o da anormalidade à normalidade?

A Partir dessa hipótese, cremos ser necessário definir educação, a qual se apresenta sendo de fundamental importância para o equilíbrio do indivíduo. A educação deve ser simplesmente uma ajuda à vida, ou seja uma ajuda colocada a serviço da criança, tendo em vista seu desenvolvimento psicológico, a construção da sua personalidade e o desenvolvimento completo de suas potencialidades. É, portanto, uma ajuda à construção de um homem livre e normalizado. Indivíduo com personalidade própria e um ser social, agente ativo de uma humanidade que evolui e progride.

Como poderá a educação contribuir para essa construção, sendo realmente ajuda e não obstáculo?

O princípio de toda educação deve ser a observação e o conhecimento do indivíduo, um conhecimento científico de seu desenvolvimento integral, conhecimento profundo de características próprias de cada etapa do crescimento natural, psíquico e físico.

Com efeito, se deixarmos a natureza desenvolver o organismo físico, procurando os nutrientes necessários, sem colocar obstáculos às conquistas e ao crescimento, vamos constatar a construção perfeita de um corpo humano. Então, tendo a mesma convicção sobre a construção psíquica,  Maria Montessori fundamentou sua obra educativa baseada no respeito por esse desenvolvimento natural. Com efeito, ela acreditava que respeitando o trabalho da natureza intrínseca do homem, sem atrapalhá-lo ou desviá-lo, ter-se-ia aberto uma via de condução objetiva, dinâmica e profunda ao desenvolvimento da normalidade.

A partir desse conhecimento cientifico, Maria Montessori pôde definir a evolução do ser, que recém nascido se torna homem, com um programa de desenvolvimento natural, que se estende por quatro fases, que ela disseminou como “os quatro planos de formação” ou “os quatro planos de desenvolvimento”.

Do ponto de vista educativo, a lógica montessoriana é adaptar a educação às exigências e necessidades do crescimento, permitindo estabelecer a seguinte equação: 4pd=4pe.

De fato, se o desenvolvimento do indivíduo segue uma lei natural que Maria Montessori considera processando em quatro períodos ou quatro planos, é evidente que a educação montessoriana deverá ser aplicada sobre esses quatro planos.

 

A CONSTRUÇÃO DO INDIVÍDUO

Agora, estudaremos a natureza desse desenvolvimento, ou seja, a construção psíquica do indivíduo e sua relação com a construção física que lhe é anterior. Tentaremos compreender qual é a extensão das forças físicas exigidas da criança, para sua representação como homem, para a sociedade e para a humanidade, como também tentaremos ver a necessidade absoluta de uma nova relação do adulto com a criança e de uma educação diferenciada, adaptada à natureza.

 

CONSTRUÇÃO FÍSICA

Podemos afirmar, que a vida de fato, não se desenvolve, mas se cria. No ponto físico, o ponto de partida da vida é uma célula, sem nenhuma complexidade, inexiste ali um corpo humano em miniatura. Não há nada nessa célula, a não ser as potencialidades necessárias, para produzir um ser vivente. Multiplicando-se ao infinito, num mesmo todo, numa mesma harmonia, ele vai produzir um organismo (conjunto de órgãos, através dos quais vão se exprimir e se realizar as diversas funções vitais que permitem a vida biológica), pronto para entrar em funcionamento. Esse organismo traz consigo todas as características da espécie. A vida não pode existir sem as funções vitais, sem o trabalho dos órgãos. A vida biológica faz funcionar o organismo vivo. Ela é a própria matéria da energia viva.

 

CONSTRUÇÃO PSÍQUICA

Por analogia, focaremos na construção psíquica do homem como no processo de criação. Podemos investigar o ser infantil em suas mínimas partículas, sem encontrarmos o homem, se por homem entendemos o ser dotado de inteligência e capacidades espirituais. Assim como na vida biológica, essas potencialidades estão no interior de uma célula. A criança é um ser simples por excelência, irá construir o conjunto de órgãos necessários à vida, ainda sem ser nada (e ninguém), a vida psíquica vai construir pouco a pouco esse complexo de órgãos psíquicos que compõem a personalidade humana.

Maria Montessori, descrevia a criança, do ponto de vista psíquico, como um “embrião espiritual” – e embrião é uma vida em vias de construir-se.

Pelo termo “embrião espiritual”, Maria Montessori, entende uma vida em que se cria e constrói a partir do nada. Não é uma vida que se desenvolve, que amplia o raio de ação que já existe. Da mesma maneira, que do ponto de vista físico só se pode falar em criança durante o período embrionário, do ponto de vista psíquico só se pode falar de criança enquanto “entidade psíquica”. Quando tivermos diante de nós uma personalidade construída. Podemos afirmar que o homem é o único ser a possuir duas vidas embrionárias e que constroem dois organismos: um organismo físico e um organismo psíquico.

Para realizar uma vida espiritual, além do organismo físico, precisamos construir um outro organismo, isto é, um conjunto de órgãos psíquicos, que nos fazem pensar, querer, falar, agir, sentir… e que chamamos comumente “faculdades humanas”. Maria Montessori, identifica-os como “meios elementares fundamentais para realizar a vida do espírito”. No começo da vida, a criança não possui nenhuma dessas faculdades, tem somente o poder de criá-las. A criança deverá construir sua psique, ou seja, aquela engrenagem necessária para que o homem possa exercer uma livre vontade, utilizar a luz da razão e viver plenamente sua vida espiritual. Isto, através das funções vitais do espírito, tais como: inteligência, vontade, emoção, fantasia, imaginação, linguagem, sem as quais não lhe será possível viver uma vida espiritual.

Da mesma maneira, que a vida biológica faz funcionar nosso organismo físico, a vida do espírito faz funcionar nosso organismo psíquico.

 

O TRABALHO DA CRIANÇA

Como se efetua essa construção psicológica? Através do trabalho da criança. O desenvolvimento da personalidade corresponde à conquista da independência progressiva da criança, em relação ao adulto, realizada graças a um ambiente adequado, no qual a criança poderá encontrar os meios que permitem o desenvolvimento de suas funções psíquicas, um ambiente onde ela poderá trabalhar e realizar suas experiências.

A atitude para o trabalho representa na criança o instinto vital, pois sem o trabalho, ele não pode construir-se, não pode organizar sua personalidade. O homem se constrói trabalhando, efetuando trabalhos manuais, nos quais a mão é o instrumento da personalidade, o órgão da inteligência e da vontade individual, que lhe permite construir sua própria essência frente ao ambiente.

O trabalho da criança é um trabalho interior e inconsciente. Um trabalho criador, realizado por uma energia espiritual interna que se liberta e se desenvolve. É um trabalho individualizante, que se repete universalmente em todas as crianças, seguindo a mesma ordem da natureza.  A criança trabalha com todo seu ser, respondendo a um apelo de vida, seguindo uma direção, uma intuição interna profunda. Ela despende uma energia imensa, sem proporção à atividade que realiza. De fato, a motivação profunda que inspira seu trabalho, é a construção do homem. A atividade construtora da criança, consiste num trabalho autêntico, que surge materialmente do ambiente externo.

Quando uma criança trabalha – explica Maria Montessori – não é para atender um fim externo, seu objetivo é o próprio trabalho, é quando no momento da repetição de um exercício ela coloca fim a essa atividade, esse fim é independente dos atos externos no que diz respeito à reação individual e a parada do trabalho não tem relação direta com o cansaço, pois uma característica da criança é sair de seu trabalho, cheia de força, com a energia renovada.

Afirmando que o trabalho é uma característica inerente à natureza  humana, Maria Montessori diz ainda “nada pode substituir o trabalho, nem o bem-estar, nem a afeição, é através do trabalho que ocorre o fenômeno da normalização”. Esta pode ser definida como processo de integração e autodisciplina, que capacita o homem a tornar-se senhor de suas atitudes e de sua própria vida. Tarefa de toda uma existência! A normalização é o próprio encontro pessoal.

O TRABALHO DO ADULTO

Enquanto a criança aperfeiçoa o ser, o adulto aperfeiçoa o ambiente. De fato, o trabalho próprio do adulto é a construção de um ambiente extranatural, uma super-natureza, que deverá responder aos desejos e às necessidades da espécie humana. A natureza não responde aos desejos e necessidades do homem, como responde às dos animais. O homem dependerá do homem para sua sobrevivência.

Maria Montessori, explica assim a super-natureza do homem:

Podemos comparar a historia da civilização a uma dessas evoluções lentas, que conduziram a uma espécie nova dos anfíbios, da vida marinha à vida terrestre. O homem anfíbio, vivendo da natureza, criou pouco a pouco a super-natureza, participando de dois tipos de vida, mas com a tendência de realizar finalmente, só uma das duas. O homem, todavia, não se transferiu simplesmente de um ambiente a outro, ele construiu seu próprio ambiente, e aí viveu de maneira tão exclusiva que não poderia, daí para frente, desistir de sua maravilhosa criação. A natureza não socorre o ser humano como faz com os outros seres vivos. Nela, o homem não encontra, como os pássaros, os alimentos prontos e os meios para construir seu ninho. O homem deve encontrar no homem aquilo que ele precisa.

Por essa razão, cada indivíduo, encontra-se ligado ao outro e cada um constrói com seu próprio trabalho, o complexo no qual vive a humanidade: o ambiente super-natural. Por conseguinte, o trabalho do adulto é um trabalho exterior, feito de atividades e esforços inteligentes, que constituem o que chamamos de “trabalho produtivo”, o qual pela sua natureza é social, coletivo e organizado.

Para atingir seus objetivos, o adulto organiza e ordena o trabalho segundo as normas que formam as leis sociais. Estas implicam numa disciplina coletiva a qual os homens se submetem voluntariamente, reconhecendo tudo como indispensável à ordem efetiva da vida social. No interior do próprio trabalho existem duas leis comuns a todos os homens e a todos os tempos, a primeira é a divisão do trabalho, a segunda é a lei do menor esforço, segundo a qual o homem procura obter a produção máxima com um consumo de energia mínimo.

CONFRONTO ENTRE TRABALHO DA CRIANÇA E DO ADULTO

O trabalho do adulto é de natureza bastante diferente do trabalho da criança. Na realidade, são diferentes no sentido em que os objetivos perseguidos pela criança e pelo adulto são diversos. De fato o primeiro, enquanto “embrião psíquico de um ser social”, tem por objetivo a construção de si mesmo, o segundo enquanto “ser social”, tem por objetivo a construção de sua sociedade, permitindo-se realizar-se enquanto indivíduo. O homem é um ser gregário que, para existir como ser humano, terá necessidade de absorver os valores humanos do grupo a que pertence e, ao mesmo tempo colaborar como indivíduo com a existência desse grupo ou sociedade. O adulto é responsável pela comunidade e pelos indivíduos que a compõem (adultos e crianças).

O trabalho da criança, por sua vez é um trabalho interno, onde as manifestações, só acidentalmente serão externas, seguindo outra lógica que não a do trabalho do adulto. Este é um trabalho voltado para o exterior, onde as manifestações e a execução terão influência sobre o interior da pessoa. Correspondendo de maneira diferente às mesmas necessidades internas, podemos dizer que essas duas espécies de trabalho não são de natureza diferente ou catastrófica, mas cada qual segue seus respectivos passos, de sentido inverso ao outro.

A diferença entre esses dois tipos de atividade, vai manter a incompreensão que gera um conflito e que Maria Montessori descreve nestes termos:

O adulto e a criança, feitos para se amarem e viverem juntos, harmonicamente, encontram-se em luta contínua, gerada por uma incompreensão que ocorre às raízes da vida e que se desenvolve num emaranhado de ações e reações.
O adulto não sabe que a criança tem dentro de si exigências de trabalho e atividade, nem pensa também na necessidade de criar-lhe um ambiente adequado. Ele mal conhece a criança e não reconhece a independência de sua natureza. Por outro lado, a missão de criar a super-natureza, suas obrigações e atividades (vitais para ele e para com a criança que depende materialmente dele), não lhe deixam tempo de se adaptar ao ritmo e às necessidades da própria criança.

 

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