Conselhos para iniciantes em uma classe ou escola montessoriana

Maria Montessori

(Texto divulgado no Curso Internacional de Perugia)

No início torna-se necessário um “período de preparação”, que será tanto mais difícil quanto mais as crianças pertencerem a uma classe social alta, onde não tiveram ocasião de fazer suas próprias experiências livres e foram ajudadas, continuadamente, de forma a permanecerem passivas; onde foram obrigadas a dormir demais, de modo que seus interesses intelectuais não puderam desenvolver-se em plenitude.

Quando se recebe na escola crianças de um ano e meio, esta “preparação” não se faz necessária. Também para as crianças mais pobres, a “preparação” não assume tão grande importância, porque estas tiveram ocasião de fazer as suas experiências construtivas, agindo no ambiente com mais liberdade e dormindo menos.

A primeira parte da preparação tem um objetivo que se pode dizer “curativo dos defeitos” que se encontram geralmente nas crianças – e que são graves nas crianças consideradas “difíceis”.

Estes “defeitos”, como movimentos desordenados e impulsivos, gritos, inquietações, incapacidade de prestar atenção, negativismo, desobediência e similares, resultam todos de erros de tratamento nos primeiros anos de vida, entre o nascimento e os dois anos e meio/três anos. Podem ser determinados, psicologicamente, como desvios do desenvolvimento normal, devido a várias causas desconhecidas genericamente, as “repressões”, e que se resumem nisto:

A mente permaneceu desnutrida e faltou a atividade muscular. As duas coisas – nutrição mental e atividade motora – são essenciais para obter um desenvolvimento psíquico normal. A normalidade tende a fazer unir funcionalmente as duas coisas: o movimento e a psiché.

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Saiba descobrir Montessori – Educação para a personalidade

Maria Angela Vinagre de Almeida

Transcrito do Jornal do Professor, Outubro de 1982.

Jornal do Brasil – Departamento Educacional

“Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente a do educador, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o bem como para o mal.”

C. G. Jung

As ideias educacionais de Jung estão intimamente vinculadas à sua teoria da estrutura mental, de extrema complexidade. Pode-se, entretanto, simplificá-la em um sistema de três instâncias:

  1. O CONSCIENTE, cujo centro é o ego e cujo conjunto de funções e de relações com o mundo constitui a persona.
  2. O INCONSCIENTE INDIVIDUAL ou PESSOAL, cujo conteúdo é adquirido, e que é formado pelos elementos reprimidos ao longo da história do indivíduo.
  3. O INCONSCIENTE COLETIVO, cujo conteúdo é específico à raça e que jamais se torna consciente.

Esse inconsciente coletivo – noção considerada como a contribuição mais original de Jung – é estruturado por arquétipos, ou seja, por disposições hereditárias para agir e reagir. Estes arquétipos exprimem-se por imagens simbólicas coletivas. Vale lembrar que o arquétipo não é o símbolo, mas a base que lhe serve de fundamento. Os mitos são imagens arquetípicas organizadas em constelações, em relatos, em histórias, sujeitos à ação transformadora da estrutura social. Tem raízes no inconsciente coletivo, e sua decifração faz-nos chegar aos núcleos comuns a toda a humanidade. Assim, os sonhos, as fantasias individuais do neurótico, os mitos coletivos de grupos humanos, as religiões, não apenas apresentam semelhanças, mas mantêm entre si uma correspondência que pode ser detectada, e exprimem a unidade do indivíduo, da espécie e do cosmos. Continuar lendo “Saiba descobrir Montessori – Educação para a personalidade”

Estamos em construção!

Paula Lobato Armond

A Educação Montessori desafia o tempo todo àqueles que se dedicam à prática do método – pais, avós, amigos, professores, etc – a buscarem o autoconhecimento, a simplicidade e o servir.

A preparação que o nosso método exige do educador é o autoexame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber servir à criança, e revestir-se de amor.

Maria Montessori

E sob essa perspectiva, para ser um Educador Montessori não basta conhecer sobre as fases do desenvolvimento humano, não basta compreender o modo de utilização dos materiais de desenvolvimento, não basta preparar o ambiente para que a criança realize suas experiências práticas, é preciso fazer tudo com amor… um amor sublime, um amor que conecta, que entende, que sabe o momento de intervir, que sabe separar o EU educador do EU educando, que sabe inspirar o respeito pela individualidade e pela coletividade, que sabe inspirar a admiração pelas características e potencialidades de cada um, que compreende no mais profundo do seu ser que cada pessoa está aqui para contribuir – cada uma com sua maneira peculiar – para a beleza e a prosperidade do mundo.

Porém, a aquisição dessa habilidade de amar, não tem fim… Estamos sempre em construção!

Maria Montessori nos ensina que a criança é o construtor de si mesmo, que aprende a partir do potencial que carrega em seu interior e de suas experiências práticas. Isso acontece de fato quando o educador também se coloca em construção, e através do amor, se aprimora, aprofunda seus conhecimentos, se conhece – num ciclo contínuo… sem buscar justificativas, sem mecanismos de defesa, sem culpados, apenas amando, errando e se aperfeiçoando…

Na atualidade, o Papa Francisco nos leva à mesma reflexão, nos colocarmos em construção.

Estamos em construção!

Durante a nossa vida causamos transtornos na vida de muitas pessoas, porque somos imperfeitos.

Nas esquinas da vida, pronunciamos palavras inadequadas, falamos sem necessidade, incomodamos.

Nas relações mais próximas, agredimos sem intenção ou intencionalmente. Mas agredimos.

Não respeitamos o tempo do outro, a história do outro.

Parece que o mundo gira em torno dos nossos desejos e o outro é apenas um detalhe.

E assim, vamos causando transtornos.

Esses tantos transtornos mostram que não estamos prontos, mas em construção.

Tijolo a tijolo, o templo da nossa história vai ganhando forma.

O outro também está em construção e também causa transtornos.

E às vezes, um tijolo cai e nos machuca.

Outras vezes, é a cal ou o cimento que suja o nosso rosto.

E quando não é um, é outro.

E o tempo todo nós temos que limpar e cuidar das feridas, assim como os outros que convivem conosco também têm de fazer.

Os erros dos outros, os meus erros.

Os meus erros, os erros dos outros.

Esta é uma conclusão essencial: Todas as pessoas erram.

A partir dessa conclusão, chegamos a uma necessidade humana e cristã: o perdão.

Perdoar é cuidar das feridas e sujeiras.

É compreender que os transtornos são muitas vezes involuntários.

Que os erros dos outros são semelhantes aos meus erros e que como caminhantes de uma jornada, é preciso olhar adiante.

Se nos preocupamos com o que passou, com a poeira, com o tijolo caído, o horizonte deixará de ser contemplado. E será um desperdício.

O convite que faço é que você experimente a beleza do perdão.

É um banho na alma!

Deixa leve!

Se eu errei, se eu o magoei, se eu o julguei mal, desculpe-me por todos esses transtornos…

Estou em construção!

Papa Francisco

Como a Educação pode influenciar o mundo hoje?

* Discurso pronunciado por Maria Montessori no  Sexto Congresso Internacional Montessori realizado em 1937 em Copenhague, Dinamarca, e publicado no  livro Educação e Paz.

 

Gostaria de propor uma ideia de importância fundamental: o tipo de educação que se necessita para promover a causa da paz, e que deve ser necessariamente complexa e totalmente distinta do que em geral se quer dizer com a palavra educação.

A educação, segundo se analisa comumente, não intervém na solução de questões sociais importantes e se crê que não tenha efeito em situações que concernem à humanidade como um todo. Em síntese, considera-se que sua importância seja muito limitada; porém se vamos  ter uma verdadeira educação para a paz, ela deve ser considerada “universalmente” um fator fundamental e indispensável, um tema de interesse decisivo para toda a humanidade.

Quando analisamos questões sociais, ignoramos a criança por completo, como se nem sequer fizesse parte da sociedade. Entretanto, se refletimos sobre a influência que pode ter a educação para atingir o objetivo de alcançar a paz mundial, podemos ver com clareza que antes de tudo devemos nos ocupar da  criança e sua educação. Temos advertido que a educação pode ter uma enorme influência na humanidade, por isso reforçamos que a educação é importante.

Já não se deve pensar na educação como se tratasse somente da aquisição de conhecimento pela crianças, e sim como uma das questões sociais de maior relevância, já que é o único tema que  concerne a toda a humanidade. As outras numerosas questões sociais têm a ver com um grupo ou outro de adultos e envolvem um número relativamente pequeno de seres humanos. A questão social da criança, sem dúvidas, tem a ver com todos os homens em todas as partes.

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